sábado, 23 de setembro de 2017

Menina e Mulher


Eu queria poder me abaixar sem temer que ao me empinar, alguém passasse e me tirasse o pedaço com os olhos. Queria que a minha carne aparente, fosse carne como qualquer outra e não o menú principal de algum predador.

Eu sei que a gente é carne e perece. Só que a maioria esquece e se aquece com muito pouco. A gente dá valor demais ao que é fresco. A gente inventa maneiras mil de cozinhar. Há sempre um jeito novo de assar ou fritar. Um ângulo novo para se sexualizar. Um canto do corpo à amostra que é tentação.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Saturei


Há um embrulho que acompanha o nosso laço. Sim, porque às vezes o nosso encontro é desordenado e alguém acaba falando mais do que devia. E o que eu queria, era que nessas horas a gente sentasse e abrisse o peito. Que a gente se encarasse sem armadura, sem disfarce e só falasse o que pesa, o que embola e atrapalha. Porque eu sei que esse embrulho é das antigas. É coisa guardada e trancada no fundo da alma.
Não raro eu penso que a distância é a sua arma. Porque tão rápido quanto você esbraveja, o atrito vira intriga passada. Coisa sem importância ou que você nem notou. Mas pra mim é dolorido constatar que temos que resolver sozinhos um problema que é nosso. Principalmente porque aqui a ferida quando abre, arde por mais tempo.

domingo, 25 de junho de 2017

Companhia


Eu vim dizer que gosto pra caramba de você. Que o teu jeito me toca e me encanta. E que com certeza, eu já te disse isso de maneiras tantas que nos dedos não dá mais pra contar. Venho lembrar também que se eu disse, pode acreditar! Porque eu não saio por aí distribuindo elogios, não. Eu na verdade guardo muito no peito e não raro isso repercute na língua.

Questions


Enquanto humanos não é raro que erremos. Alguns de nós fazem do erro o norte e assim caminham, crescem, deixam florir. Mas há quem sinta, sinta o tropeço e se prenda nele. Não é que estes não aprendam com a falha, mas é sempre muito dolorido deixar sarar. E assim caminha a humanidade, cheia de nós, cheia de gente e imperfeições ambulantes.

No meio de tudo isso, eu me pergunto tanto! Não posso deixar passar. Eu preciso saciar a minha mente para acalmar o meu coração. E há muito que não faz sentido e assim permanece ao longo dos anos. Nem tudo na vida a gente tem que entender, mas por quê?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Desintegrar


Vem feito trem desgovernado, anunciado pelo salivar. A gente só sabe que tem que ir, qual o fim, mas nem sempre o porquê. Foi assim que eu comecei o meu desintegrar.

Repetidas vezes eu deixei minha vida escapar pelos lábios. Tantas, que o ato de escape já me parecia tal qual bocejar. Comecei a encarar com certa naturalidade deixar que tudo que ingeri se desfizesse ali, bem em frente a mim, a um palmo do salivar.

domingo, 21 de maio de 2017

As pretinhas precisam saber que são lindas.


Eu sou de uma época não muito distante em que cabelo crespo era chamado de “cabelo duro, cabelo ruim, fedorento, uma palha” e derivados. As minhas bonecas eram todas loiras e dos olhos azuis. As atrizes da televisão também eram assim (e ainda são!), em sua maioria. O meu padrão não era veiculado, sabe?

Eu não estava representada nos meios de entretenimento e se eu estava, com certeza era sob nuances emergentes, de pobreza ou de miséria. Havia sempre um sofrimento relacionado ao preto. Uma dificuldade.

domingo, 2 de abril de 2017

Who cares, anyway?


Ser bem articulado, ter boa armadura e maturidade não é sinônimo de vida tranquila. Tem resposta que a gente guarda num cantinho inóspito de nós mesmos e no desespero, a gente vai deixando as preocupações turvarem a visão, tanto que alguém precisa pegar a lanterna e apontar pra a gente a solução.
Decerto, a clareza não vem pra todos. Mas até o mais atento dos homens pode sofrer por dispersão. No fim do dia, todo mundo se precisa um pouco. Empatia é o que falta, dizem no sermão.

Interesses


É tão frágil a atenção nos dias de hoje. Ela tem prazo de validade, dose certa, palavras comedidas e prescrição exata. Você sabe, a minha dedicação termina onde meu interesse acaba.

Há um ego faminto que precisa ser bajulado pelos meus amigos. Se não, pra quê mais se rodear de gente? Eu preciso vender, parecer, atrair e nada mais. E não importa quem feriu ou ficará ferido, contanto que eu pareça feliz no final. Contanto que eu caiba na minha caixa social. Aquele perfil que eu vendi.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Controle


A gente tá entre os enquadros de Adriana e a sonífera ilha de Titãs. No caminho, eu te puxei pelo rádio e segui sua trilha. Eu te queria sozinho, como queria. Eu te cantava meus versos de amor, eu te escrevia poemas abandonada no quarto. Eu te segui com os olhos, eu deslizei o dedo no touch e me senti traída. Eu gravei uns áudios e te culpei. Eu gritei.

Abraçar o mundo


Desde sempre eu ouço minha mãe falar que eu quero abraçar o mundo e que isso era algo impossível, um verdadeiro problema. Ela tem razão, mas isso não me fez parar. Eu precisei tropeçar umas mil vezes para entender que a minha felicidade e o meu sofrimento moram aí.